terça-feira, 23 de abril de 2013

Fichamento - "O que é Semiótica?" - Parte II

Na segunda parte do livro, Santaella mostra como Peirce divide os estados de consciência (primeiridade, secundidade, terceiridade) e a divisão do signo em relação ao seu objeto.


"(...)Consciência não se confunde com razão. Consciência é como um lago sem fundo no qual as idéias (partículas materiais da consciência) estão localizadas em diferentes profundidades e em permanente mobilidade. A razão (pensamento deliberado) é apenas a camada mais superficial da consciência. Aquela que está próxima da superfície. Sobre essa camada, porque superficial, podemos exercer autocontrole e também, porque superficial, é a ela que nossa autoconsciência está atada. (...) Apesar de não restringir consciência à razão, isto não significa que Peirce menosprezasse a razão. Sua lógica, aliás, se propõe como sendo um método científico para orientar o raciocínio. Sua lógica se estrutura, portanto, como a criação de instrumentos científicos para auxiliar e ampliar o poder da razão.(...)"(p9)

Dando uma explicação sobre consciência como algo mutável de acordo com os aspectos que a racionalidade a submete, a autora exemplifica ainda mais a razão como ferramenta científica para orientar o estudo da Semiótica de Peirce.

"(...)Assim sendo, consciência não é tomada como uma espécie de alma ou espírito etéreo, mas como lugar onde interagem formas de pensamento. As categorias, portanto, dizem respeito às modalidades peculiares com que os pensamentos são enformados e ntretecidos.(...)"(p9)

A consciência como lugar de interação e da convergência de signos, a partir desse ponto os estados que os signos percorrem pela consciência são categorizados. 


  • Primeiridade:


"(...)Trata-se, pois, de uma consciência imediata tal qual é. Nenhuma outra coisa senão pura qualidade de ser e de sentir. A qualidade da consciência imediata é uma impressão sentimento) in totum,  indivisível, não analisável, inocente e frágil.
Tudo que está imediatamente presente à consciência de alguém é tudo aquilo que está na sua mente no instante presente. (...)"(p9)

"(...)A consciência de um momento, contudo, como ela está naquele exato momento, não é reflexionada nem quebrada em pedaços. Como eles estão naquele vero momento, todos os elementos de impressão estão juntos e são um único sentimento indivisível e sem partes. O que foi destilado pela fragmentação descritiva, como sendo partes do sentimento, não são realmente partes desse sentimento como ele está no exato momento em que está presente; elas são o que aparece como tendo estado lá, quando refletimos sobre o sentimento, depois que ele passou. Como ele é sentido, no momento em que lá está, essas partes não são reconhecidas e, portanto, essas partes não existem no sentimento ele mesmo.(...)"(p10)

"(...)Consciência em primeiridade é qualidade de sentimento e, por isso mesmo, é primeira, ou seja, a primeira apreensão das coisas, que para nós aparecem, já é tradução, finíssima película de mediação entre nós e os fenômenos. Qualidade de sentir é o modo mais imediato, mas já imperceptivelmente medializado de nosso estar no mundo. Sentimento é, pois, um quase-signo do mundo: nossa primeira forma rudimentar, vaga, imprecisa e indeterminada de predicação das coisas. (...)"(p10)

Assim, primeiridade trata da primeiríssima impressão que temos do fênomeno no momento em que ele é apresentado, sem nenhuma racionalização sobre aquilo sobre como o que exatamente é ou para quê serve.



  • Secundidade:
"(...)O simples fato de estarmos vivos, existindo, significa, a todo momento, consciência reagindo em relação ao mundo.(...)" (p10)

"(...)Certamente, onde quer que haja um fenômeno, há uma qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade tem de estar encarnada numa matéria. A factualidade do existir (secundidade) está nessa corporificação material.(...)"(p10)


A secundidade implica na percepção do objeto em si, depois de percebermos que ele existe (primeiridade) e a primeira sensação que nos dá, percebemos do que aquilo se trata.


  • Terceiridade:

"(...)Finalmente, terceiridade, que aproxima um primeiro e um segundo numa síntese intelectual, corresponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo.(...)"(p11)

"(...)Diante de qualquer fenômeno, isto é, para conhecer e compreender qualquer coisa, a consciência produz um signo, ou seja, um pensamento como mediação irrecusável entre nós e os fenômenos.(...)"(p11)


Já a terceiridade é toda a racionalização que se faz do signo, pensamentos que envolvam aquilo que foi visto, sentido, tocado em relação ao meio, qualquer tipo de conceituação ou conclusão que se tire desse signo é terceiridade. 

"(...)"Um signo intenta representar, em parte pelo menos, um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo se o signo representar seu objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determine naquela mente algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo, e da qual a causa mediata é o objeto, pode ser chamada o Interpretante".(...)"(p12)

"(...)Assim, na relação do signo consigo mesmo, no seu modo de ser, aspecto ou aparência (isto é, a maneira como aparece), o signo pode ser uma mera qualidade, um existente (sin-signo, singular) ou uma lei.(...)"(p13)

Dentro da Semiótica peirceana os signos foram divididos em tríades de acordo com a relação que fazem com seus objetos e suas interpretantes. No texto, foram apresentadas as categorias básicas dessa divisão de signo como quali-signo, sin-signo e legi-signo. Essas categorias servem para identificar possíveis utilizações do signo e traçar uma lógica para entender suas raízes. 

"(...)"Um símbolo não pode indicar uma coisa particular; ele denota uma espécie (um tipo de coisa). E não apenas isso. Ele mesmo é uma espécie e não uma coisa única. Você pode escrever a palavra estrela, mas isto não faz de você o criador da palavra — e mesmo que você a apague, ela não foi destruída. As palavras vivem nas mentes daqueles que as usam. Mesmo que eles estejam todos dormindo, elas vivem nas suas memórias. As palavras são tipos gerais e não individuais".(...)"(p15)

Essa definição que Peirce fez é realmente muito aplicável, principalmente quando fala que as "palavras vivem nas mentes daqueles que as usam ", pois  esse conceito é estendido para o signos de modo geral, a sua significação depende de vários fatores, como a sociedade, o meio ou mesmo a quem é aplicado. Signo, mesmo vindo de uma raiz "fixa" é algo mutável e compreender a sua raiz e a sua significação primária, serve também para manipular essa característica mutável, para que assim o uso de um determinado signo tenha sucesso para o objetivo que lhe foi designado. 

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